Tenho em mim uma real preocupação – o arroz de cabidela não vai durar para sempre. Pensar numa existência sem tal iguaria é ter a sensação que nos falta alguma coisa.
Tenho um certo desconsolo de quem não conhece e por isso nunca provou uma boa cabidela. Para quem já provou e diz que não gosta, bem, nesse caso só posso concluir que faltou a algumas aulas de saber estar na vida!
Apreciar um arroz de cabidela é participar num evento. Nunca se faz tal prato apressado ou em cima da hora. Não é feito para despachar uma refeição ou só para uma ou duas pessoas. É um acontecimento que deve ser agendado, programado e executado com paixão. É um prato de e para a família. Cada família tem o seu tempero e modus operandi e isso enriquece a discussão de saber onde se come o melhor prato.
Sempre que penso num bom arroz de cabidela sou transportada para um universo paralelo – ele só existe se for feito por gente experiente, com matéria-prima da casa, com o saber que foi passado e aprimorado. Só se aprende vendo, e eu já não o vejo há muito tempo.
Como é que eu vou conseguir fazer com maestria algo que vi apenas meia dúzia de vezes? Saber todos os truques não é para qualquer um. Dominar todos os temperos, acertar no ponto do arroz e terminar com o sangue na dose equilibrada de vinagre é no mínimo assustador. E este prato tem mais um pormenor que o torna belíssimo, porém intimidante. Deve ser servido imediatamente a seguir à sua confecção, quando o arroz está no ponto e o caldo consistente está apurado. Não dá para guardar para mais tarde… para o almoço do dia seguinte. Não vai estar igual, será apenas um arroz de frango empapado e triste.
Descobrir nos recantos do nosso país restaurantes que dominem este prato e arrisquem apresentar na carta o arroz de cabidela é quase uma caça ao tesouro. Encontrar quem faça bem é uma conquista que só deve ser partilhada por apreciadores. Esses espaços são quase como entidades secretas, não devem ser muito divulgada, não vá de repente se massificar e tornar uma reserva de mesa uma missão impossível.
Por isso, nos dias de hoje a cabidela está em vias de extinção. Não basta seguir uma receita escrita, tem de se por as mãos na massa, treinar, errar, treinar muito até acertar.
Para os mais corajosos, aqui fica uma receita:
Ingredientes:
- 1 frango (aproximadamente 1,5 kg) – deverá ser caseiro
- 1 cebola grande, picada
- 3 dentes de alho, picados
- 2 folhas de louro
- 1 raminho de salsa
- 200 ml de vinho branco
- 2 colheres de sopa de azeite
- 1 colher de sopa de vinagre
- 1 chávena de arroz carolino ou agulha
- 1 litro de água (ou caldo de galinha)
- Sal e pimenta a gosto
- Sangue do frango, misturado com um pouco de vinagre para não coagular
Instruções:
Preparação do Frango:
Limpe e corte o frango em pedaços.
Tempere o frango com sal, pimenta, e alho. Deixe marinar por pelo menos 30 minutos.
Cozedura Inicial:
Em uma panela grande, aqueça o azeite em fogo médio.
Adicione a cebola picada e o alho, e refogue até dourar.
Acrescente o frango e doure os pedaços de todos os lados.
Adicione o vinho branco, as folhas de louro, e a salsa. Deixe cozinhar até que o vinho evapore um pouco.
Adição do Arroz:
Adicione a água (ou caldo de galinha) e deixe ferver.
Junte o arroz e misture bem. Reduza o fogo para médio-baixo e deixe cozinhar até que o arroz esteja quase pronto (cerca de 15-20 minutos).
Finalização:
Quando o arroz estiver quase cozido, adicione o sangue do frango misturado com vinagre, mexendo bem para incorporar.
Cozinhe por mais 5 minutos, mexendo ocasionalmente, até que o arroz esteja totalmente cozido e o molho esteja espesso e bem misturado.
Ajuste o sal e a pimenta, se necessário.
Serviço:
Retire do fogo e sirva imediatamente, decorado com salsa picada.
O arroz de cabidela é tradicionalmente acompanhado por uma salada e um bom vinho tinto português.
P.s.: Aceitam-se boas sugestões de restaurantes que ainda ousem fazer bem este magnífico prato.
