O dever de preservar, registar e divulgar.
Algumas das lembranças mais presentes que tenho de infância envolvem sempre a cozinha, a lareira e aqueles aromas e sabores tão únicos que ali se construíam. Era em Trás-os-Montes, sempre que lá ia em férias de verão e outras ocasiões, que tudo o que era confeccionado naquela cozinha da minha avó tinha um sabor diferente. Não que a minha avó fosse melhor cozinheira que a minha mãe, nada disso – tenho a sorte de ter uma mãe com talento suficiente para fazer qualquer chef querer sentar-se e aprender alguma coisa com ela. Havia naquele prato algo que não dava para replicar quando voltava para Lisboa…
Mas então, o que tem a cozinha de Trás-os-Montes de especial? Quase tudo. Lembro-me do fumeiro pendurado sobre a lareira, os potes que ferviam os caldos ao lume, e depois o que se ia buscar à despensa para se confeccionar as refeições. Praticamente todos os ingredientes estavam na “mercearia” da casa – a adega. Ali encontrávamos cebolas, batatas, azeite, vinho, carne, enchidos, presuntos, frutas, ovos, mel e tudo aquilo que necessitássemos para ter um banquete digno de rei. Mas afinal, o que tem isso de tão especial? O sabor e o saber. Não é por acaso que hoje procuramos o “artesanal”, o “orgânico”, o “tradicional”, mesmo sabendo que são pequenos truques de marketing que nos embalam para aquilo que queremos que seja a reativação da memória do que é autêntico. Jamais voltarei a comer as melhores alheiras. Afinal eram feitas pela minha avó e ela levou o saber com ela.
Mas não é só de gastronomia que essas memórias são feitas. Ir “à terra” era ser surpreendida a cada dia. Os costumes, as tradições, festas e romarias que estavam sempre presentes faziam com que o tempo abranda-se e se vivesse tudo aquilo com uma intensidade só compreendida por quem partilhava do mesmo. Todas essas vivências eram guardadas para que durante o ano pudéssemos trazer connosco o que de mais autêntico vivemos nesses dias. No ano seguinte voltamos a encher esses tubos de ensaio de experiências. Felizes aqueles que tiveram “terra” para visitar na infância!
Um dos motivos que me leva também a criar este projeto é o dever de passar aos mais novos aquilo que faz de nós únicos (afinal o que é isto de ser português?)! Procurar saber mais sobre as nossas origens gastronómicas, culturais e artísticas.
Honrar quem já cá esteve antes de nós a errar, a testar e acertar naquilo que é hoje a nossa identidade. A nossa cultura, tradições e hábitos faz de nós aquilo que também somos.
